Vamos dar nome aos "Bullying"? Ops, quero dizer: aos bois!

Inúmeras questões me causam incômodos e inquietações na educação, entre elas, o termo "bullying", utilizado com frequência para explicar todos os conflitos vivenciados na escola.  

A sociedade capitalista se construiu e constituiu culturalmente sob vários tipos de preconceitos e violência: racismo, machismo, homofobia, xenofobia, discriminações das mais variadas por conta dos estereótipos e comportamentos padrões. Nadamos contra a maré dos nossos corpos e mentes para sermos socialmente aceitos. Além disso, a violência doméstica cometida contra crianças e adolescentes, com o consenso da sociedade que diz que  "um tapinha não dói", "que não era pra espancar", que "uma surra dada na hora certa educa de forma necessária e eficaz", acaba por naturalizar e, complementar esse quadro lastimável de uma cultura de preconceitos e violência.

 O ambiente escolar, por sua vez, com seus prédios quadrados e salas lotadas, é um lugar que aglomera pessoas em determinada faixa etária, as deixando confinadas muitas horas por dia, cinco dias por semana, assim, acaba por favorecer essas situações de violência genericamente determinadas como Bullying. Todavia, esses conflitos não são oriundos da escola, muito menos, inerentes às crianças e adolescentes,  porém, estes ambientes, por vezes, demasiadamente insalubres, acabam potencializando-os.



Isso posto, quero me ater nesta crônica a forma genérica com que se trata todos esses conflitos, utilizando apenas uma palavra, tornando limitadas e ineficazes, tanto a compreensão das situações, quanto as ações para solucioná-las, pois ficamos na superficialidade do problema.
  
Campanha da Cartoon NetWork
Não é pouca  a literatura sobre bullying, nem palestras ou campanhas de "como acabar com ele", porém, ao meu ver, ao não tratarmos os problemas com suas devidas especificidades, não conseguimos avanças na desconstrução dos mesmos.

 

Há anos, deixei de tratar as situações racistas, machistas e homofóbicas, entre outras, na sala de aula como "bullying".  Ao dar nome aos bois, colocando inclusive as origens históricas, consegui pequenos resultados. Sem esquecer que nossas ações isoladas na escola muitas vezes enxugam gelo, apesar disso, deixar de mascarar o problema, deixar de tratá-los de forma genérica, tem demonstrado que podemos dar um passo adiante, pois o debate, de certa maneira, acaba reverberando em casa, outro universo que influência nossos pensamentos e nossas ações.
Tivemos o caso de uma garoto que praticava racismo aos 11 anos de idade contra seus colegas de turma. Suas ações eram tratadas de forma genérica como "bullying", por insistência, solicitamos a vinda dos responsáveis, e a mãe nos contou que o avó paterno era extremamente racista, e que o menino reproduzia o que aprendeu com ele. Ou seja, ele não nasceu racista, aprendeu ser. Mas como não lhe dissemos que era racismo, e sim bullying e "que bullying não é legal", não avançamos para a possibilidade de uma reflexão crítica que proporcionasse um mudança de pensamento e comportamento. Assim como, as crianças que sofrem racismo, só tomam consciência anos mais tarde, porque lhes diziam que sofriam bullying.

A máxima, de que somos o que aprendemos a ser, não foge das regras do ser/estar na escola. Crianças e adolescentes agridem os colegas fisicamente, porque na maioria das vezes aprenderam socialmente que essa é forma de se resolver problemas, ou pior, alguns demonstram ser a única forma convivência com o outro, porque, na sociedade capitalista, o outro é visto como empecilho. Não podemos esquecer das demais influências além dos parentes, temos o rádio, a TV, a publicidade, as mercadorias e a internet, esta última que com poucos cliques nos ensina inúmeras coisas. Dessa forma crianças e adolescentes estão muito vulneráveis e, muitas vezes, sem condições de "filtrar" ou questionar  que aprendem. 

A "contribuição" da escola está no âmbito de ultrapassar o senso comum, aprofundando e problematizando essas situações a luz da ciência, por exemplo, quando um menino agredir ou ofender uma menina, ou praticar abusos (o famoso "passar a mão"), essas situações devem ser compreendidas e problematizadas como ações MACHISTAS ou, se for o caso, como violência contra a mulher. Da mesma forma que chamar o outro colega de "viado, bichona, etc." deve ser tratado como HOMOFOBIA. Quando a criança for hostilizada por ser estrangeira, ou por ter sotaque nordestino, isso deve ser tratado como XENOFOBIA. E a partir daí pensar em formas de intervenções um pouco mais efetivas, através de materiais muito bons produzidos atualmente.

Considero importante enfatizar que não defendo que a escola tem que resolver todas essas questões de forma isolada, ou que seja responsável por acabar com elas, uma vez que nem conseguiríamos, dadas as condições em que trabalhamos, vide a desorganização perpetrada pela política do PSDB, fechando 94 escolas em São Paulo, que precariza ainda mais nosso trabalho.

Por fim, essa crônica não se propõe a ser uma tese (ainda), e nem desmerecer os especialistas no assunto. Mas gostaria que minha reflexão, pautada na experiência e análise do contexto do cotidiano escolar, possam nos levar a entender a forma genérica como tratamos os conflitos sociais na escola, para quem sabe, num futuro próximo, a escola possa se constituir num ambiente de aprendizagem e de convivência com a diversidade, onde ser gordo ou ser magro, ser alto ou ser baixo, ser negro ou ser ruivo, ser haitiano ou nordestino, sejam tratados como algo tranquilo. Mas isso continuará cada vez mais longe se não começarmos a dar nomes aos bois, ops, quero dizer ao BULLYING.